PSICOTERAPIA COMO ALQUIMIA
07/10/2008Psicoterapia, um processo alquímico segundo a visão Junguiana.
JUNG pensava que a Alquimia, verificada à luz do simbólico e não do científico, poderia ser considerada como um dos precursores do moderno estudo do Inconsciente e, em particular, do interesse analítico na transformação da personalidade.
Os Alquimistas projetavam seus processos internos naquilo que estavam fazendo e, a medida que levavam a cabo suas várias operações alquímicas, passavam por experiências internas, profundas e apaixonadas, algumas de cunho espiritual.
Tanto quanto se possa fazer uma reconstituição, os Alquimistas dos séculos XV e XVI tinham dois objetivos inter-relacionados: 1) Alterar ou transformar materiais básicos em algo valioso como o elixir universal ou pedra filosofal; 2) Transformar uma matéria básica em espírito, ou liberar a sua alma.
Essas metas são como metáforas para o crescimento e o desenvolvimento psicológicos.
O alquimista escolhia elementos opostos. Isso porque a atração de opostos acarretaria sua eventual conjunção e em última análise, a produção de uma nova substância. A nova substância após a combinação química e a regeneração se realizarem várias vezes e de maneiras diferentes, iria emergir como algo puro.É o fato de que uma tal substância não parece existir que levou JUNG a entender que a Alquimia deva ser abordada de um ponto de vista simbólico. Por exemplo, a combinação de dois elementos opostos pode ser representada nos estudos alquímicos por figuras masculinas e femininas que se engajam numa relação e produzem um bebê, se juntam como hermafrodita, ou se tornam um andrógino. Em virtude de o resultado da relação ser uma nova entidade, pode se ver que os seres humanos e seu desenvolvimento estão sendo usados simbolicamente para se referir a processos intrapsíquicos e ao modo como uma personalidade individual se desenvolve.
Porém não se deveria pensar que o fator interpessoal é negligenciado. O alquimista trabalhava em relação com uma outra pessoa, referida como soror mystica. Portanto a Alquimia é também uma metáfora que elucida o modo como um relacionamento com uma outra pessoa promove um crescimento interno e também como os processos intrapsíquicos provêem as relações pessoais. A realidade externa é o reflexo da realidade intrapsíquica.
Os escritos de JUNG estão repletos de referências alquímicas e, não por acaso, a esses ele dedicou muitos anos de estudo.
Alguns paralelos entre o processo alquímico e o processo de individuação que pode ocorrer em uma psicoterapia:
1)- Prima Matéria ( massa confusa)- Os elementos originais em estado de caos, antes de iniciar o processo de individuação, confusão psíquica.
2)- Nigredo – Estágio no processo alquímico de um obscurecimento dos elementos sugerindo que algo de importante está prestes a realizar. Na análise pode assumir a forma de uma depressão logo antes do momento ou do fim de um período inicial de lua-de-mel. De modo geral refere-se ao confronto com a sombra.
3)- Vaso – Recipiente alquímico. Na análise, refere-se a aspectos continentes do relacionamento analítico, do setting terapêutico na relação com o analista.
4)- Conjunctio – A união no vaso dos elementos opostos ali colocados. Na análise vários tipos de conjunctio podem ser observados:
• A consciente aliança de trabalho que se desenvolve entre o analista e seu “oposto” analítico, o cliente, para o objetivo comum desenvolvido no processo;
• A conjunctio entre consciente do paciente e o seu inconsciente, a medida que ele se torna mais auto-consciente;
• O mesmo processo no analista;
• A integração crescente dentro do inconsciente do paciente de lutas e tendências lá encontradas;
• A fusão gradativa daquilo que era totalmente sensual ou material com o que era totalmente espiritual, para produzir uma posição menos unilateral.
5)- Lápis – Auto-realização, individuação.
6)- Opus – O processo, o trabalho da vida, que pode ser através da análise.
7)- Putrifactio – Estágio no processo alquímico em que, dos elementos em decadência exala-se um vapor que prenuncia a transformação. ( Aceitação e introjeção de aspectos até então inconscientes).
8)- Mortifactio – Estágio no processo alquímico em que os elementos originais estão mortos. Na análise, os sistemas podem adquirir um novo significado e o relacionamento analítico, uma nova importância ( transformação).