Ligia Baruch Psicologia
. O CAMINHO DE SANTIAGO . PSICOTERAPIA COMO ALQUIMIA    

A FUNÇÃO DO ADOECER

07/10/2008

Você pode estar intrigado com este título. - Como algo tão ruim como adoecer pode ter uma funcionalidade ? Ter uma função implica em algo positivo. Qualquer doença é tida como um entrave, um atraso, nos nossos propósitos. Propósitos de sermos produtivos, aproveitarmos a vida em toda a sua intensidade, realizarmos todos os desafios a que nos propomos, para assim chegarmos mais perto daquela imagem perfeita que idealizamos para nos mesmos.

Quantas vezes não pensamos: - Ah! Quando eu conseguir aquele emprego, aquela casa, aquele corpo, aí sim, eu serei feliz.
E nessa luta desenfreada para atingirmos nosso Eu Ideal, muitas vezes passamos por cima do nosso corpo. Deixamos de escutar os sinais que ele nos dá, não temos tempo a perder,e os "caprichos" do corpo precisam ser calados e as necessidades emocionais negadas.

Imagino que todos vocês, sem excessão, já estão cansados de ouvir falar e até mesmo vivenciar um estado de tensão chamado popularmente de stress ou ,em português, estresse.

Esse termo cunhado por Hans Selye para designar: " estado de tensão não-específico de um ser vivo, que se manifesta por mudanças morfológicas tangíveis, em diferentes orgãos, e particularmente nas glândulas endócrinas".
O estresse é necessário ao ritmo da vida, é o preço que se paga à vida, pois a ausência total de estímulos ou estresse seria o mesmo que estar morto ou voltar ao útero materno. Contudo, o excesso de estimulação é nocivo quando se torna maior do que a capacidade do organismo em lidar com ele.

Muitos são os agentes estressores: a angústia difusa relacionada a traumas do passado ou medo do futuro, as situações de perdas concretas, catástrofes naturais, insatisfações com aspectos profissionais, decepções amorosas, conflitos com a família, filhos ou amigos, mudanças de vida de forma geral.

A doença começa muito antes dos sintomas físicos tornarem-se visíveis. O desequilíbrio da homeostase do organismo sinaliza a crise eminente de diversas formas. E o orgão de choque, aquele mais sucetível ao adoecer, ( por questões genéticas, hábitos nocivos ou questões subjetivas e simbólicas), é o lugar escolhido para o colapso. A doença pode trazer um sossego forçado, pois protege contra o mundo exterior, as vezes sentido como agressivo, ou protege contra sensações internas que são momentaneamente insuportáveis. Os sintomas podem ser" lidos" como representações de afetos encapsulados.

Uma importante ressalva é preciso ser feita entretanto, em relação às interpretações precipitadas e muitas vezes " selvagens " desses significados. Da mesma maneira que devemos olhar com reservas os dicionários de sonhos, devemos resistir a criar um glossário dos significados psicológicos dos sintomas.

Nada em relação ao humano é tão simplista. Devemos, antes de mais nada, deixar as definições e idéias pré-concebidas sobre as doenças como pano de fundo. Deixando esses conhecimentos "a priori " fora do foco principal, estaremos mais livres para olhar a pessoa na sua singularidade. E de forma cuidadosa, convidá-la a um encontro com a pessoa do terapeuta, para assim examinar toda a gama de afetos, imagens e significados particulares que determinado sintoma pode conter.

Muitas vezes basta perguntar pela finalidade de um sintoma, para eliminar ou melhorar a sensação subjetiva da doença localizada.
Na relação com o analista ou terapeuta, novas possibilidades de compreensão dos processos de vida são despertadas na psique do paciente e do terapeuta e esse processo favorece muito o tratamento médico.

Fazem parte também das tarefas do terapeuta o reconhecimento e a superação das resistências do paciente ao tratamento, ajudando-o a compreender o conflito subjacente à doença.

Vivências traumáticas de qualquer natureza inundam o aparelho psíquico de estímulos. É preciso haver uma espécie de drenagem desse excedente de excitação-tensão.

O estímulo encontra três vias possíveis de elaboração e descarga: a mental (pensamentos, sentimentos, fantasias), a motora (ações, movimentos) e a somática (adoecer).

A doença embora seja resultado de uma desorganização no indivíduo, também pode ser vista como um ponto de parada para uma reorganização da vida dessa pessoa.

A presença de traumas ou situações de excesso de estímulo que o indivíduo não tem como lidar estão na gênese de muitas doenças. A doença pode ser percebida como uma comunicação, uma busca de saída ou como recurso último para lidar com algo que não pode ser elaborado por outras vias.

Dar um sentido para o sofrimento orgânico através de um trabalho de análise e auto-conhecimento possibilita uma melhora real na saúde.

A doença trás em si a marca do desamparo, por isso é preciso de um outro ou outros: médico, enfermeiro, psicólogo, fisioterapeuta, para ajudar a pessoa a curar-se.

Algumas vezes a doença tem uma função na relação, pois ninguém existe sozinho, somos um EU relacional, existimos e nos constituímos NA RELAÇÃO. É por isso que é importante a presença de um certo outro no processo de cura.
Os pacientes chegam muitas vezes regredidos pelos aspectos da dor, e a função acolhedora do médico e do psicólogo é fundamental para o restabelecimento deste. Esses cuidados, muitas vezes se assemelham aos cuidados que se dedicam a um bebê. A disponibilidade real dos cuidadores, é claramente percebida pelo paciente.

A comunicação não-verbal assume um lugar fundamental nesta relação.

De fato, sentir que está sendo cuidado e escutado nas suas necessidades favorece muito a melhora. O terapeuta funciona como um tradutor dessas necessidades, como alguém que capta e traduz para o paciente o que está acontecendo com ele naquele momento crítico. Proporcionando um ambiente protegido e uma relação de reconhecimento e validação dos sentimentos do paciente, muitas vezes confusos e contraditórios.

Podemos perceber as manifestações psicossomáticas como uma estória que é preciso ser reconstituida. O sintoma somático ,muitas vezes, é endereçado a um outro, pois a crise somática acontece num ser que se relaciona com outros.
É importante ressaltar a dimensão única do paciente constituída naquele momento por sua estória também única e na qual está inserida a sua doença. É também , no caráter único da relação terapêutica que a doença encontra suporte emocional para sua reversão.

A clínica psicossomática orienta-se para a investigação dos mecanismos individuais que transformam a doença em um recurso possível para a superação de um impasse de vida ou conflito impossível de ser elaborado ou superado de outro modo.
Inúmeras pesquisas apontam para a influência dos fatores emocionais e psicossociais sobre o funcionamento imunológico. Essas pesquisas levaram a criação de um novo campo de pesquisas , a neuropsicoimunologia, visando os estudos e o desenvolvimento de abordagens profiláticas e diagnósticas das doenças de origem imunológicas, neuroendócrinas e psicológicas.
O Sistema Nervoso e Imunológico se comunicam.

No entanto, essas novas descobertas não conseguem explicar o comportamento humano em relação ao adoecer em toda a sua complexidade.

É necessário uma medicina que dialogue com outras áreas de pesquisa, como a psicologia, a filosofia e a antropologia para se aproximar dessa complexidade e imprevisibilidade do humano.

A doença faz parte de uma dinâmica complexa e integrada, na qual participam simultaneamente fatores biológicos, afetivos e sociais.