O CAMINHO DE SANTIAGO
07/10/2008Como uma Experiência de Corporificação da Consciência.
O peregrino é uma espécie de monge temporário e itinerante: sai de sua casa e sua terra para colocar-se em atitude de caminhar e de encontrar , buscando aquilo que lhe enche a vida, lhe renova..., buscando a Deus em definitivo.(escrito em um mural do albergue de Granõn, autor desconhecido)
Introdução
A Dinâmica Energética do Psiquismo coloca-se como um caminho de auto- desenvolvimento, pelo treinamento da “escuta do ser”. Fazer o caminho do desenvolvimento da consciência, manifestando em si a Consciência é fazer o “caminho do herói”, o caminho em busca do Si Mesmo, que é um despertar permanente.
O Caminho de Santiago de Compostela é uma rota medieval de peregrinação que vem sendo percorrida à séculos , através do norte da Espanha, de leste a oeste até a chegada na Catedral de Santiago como representação do retorno ao centro, ao self, ao divino.
Este caminho vem sendo trilhado por milhares de pessoas de todas as partes do mundo no decorrer dos séculos, criando um campo energético no local favorável ao contato com o Ser.
Neste trabalho procuro traçar um paralelo entre o caminho de Santiago de Compostela na Espanha e o caminho do terapeuta da DEP. Tanto um quanto o outro são manifestações do padrão da aventura mítica do herói em sua busca espiritual.
Acredito que o Caminho de Santiago de Compostela e a formação do terapeuta, na Dinâmica Energética do Psiquismo, são rituais de iniciação que muito contribuem na formação e no desenvolvimento daqueles corajosos aventureiros que responderam a seus chamados.
A Dimensão Histórica
Conta a tradição que no ano 813 depois de Cristo, um eremita chamado Pelayo viu uma espécie de chuva de estrelas sobre um bosque da Galícia. Chegando lá encontrou o túmulo do apóstolo Tiago e de seus discípulos. A notícia logo se espalhou e vieram pessoas de todas as partes da Europa para visitar o túmulo do apóstolo, muitos que iam, no retorno acabaram ficando pelo caminho, e assim muitas cidades foram surgindo, criando o que mais tarde ficaria conhecido como o Caminho de Santiago de “Campo de Estrelas”, hoje Caminho de Santiago de Compostela.
O Caminho de Santiago pode começar de qualquer ponto. Muitos europeus saem da porta de suas casas e percorrem mais de 1500 kilometros até a Catedral de Santiago. Outros a dividem em etapas e a cada ano percorrem um trecho e finalizam a peregrinação ao cabo de dois ou três anos. Nós os brasileiros costumamos fazê-lo de uma só vez e tradicionalmente saímos da cidade francesa Saint Jean Pied-de-Port, atravessando os Pirineus, ou de Roncesvalles já na parte espanhola do caminho.
Percorrer o Caminho é uma experiência de iniciação. A iniciação é de certo modo, um morrer de um estado para o reconhecimento de um novo estado.
A Dimensão Transcedente
O caminho é a manifestação física visível do transcendente, que aparece através das muitas lendas, mitos e história que fazem parte do Caminho.
Pessoas de diferentes culturas, idades e níveis sociais, sendo católicos ou não, religiosos ou não, estão todos respondendo a um chamado interno do Ser.
Na realidade poucas são as pessoas que tem uma consciência clara dos seus propósitos antes de empreender a peregrinação, pois o seu sentido é parcialmente inconsciente, poucos sabem o que os move frente a tantos obstáculos.
A rota, os kilômetros, a terra, o corpo são o suporte físico onde o transcendente se manifesta.
A totalidade inconsciente que existe no mais profundo substrato de cada ser humano, e aonde estão inscrito todas as possibilidades tem então uma oportunidade de manifestar-se, ampliar-se, torna-se consciente.
O objetivo do Caminho é aproximar-se do Ser. A meta pode ser entendida também como a união dos opostos. A saída da dualidade em busca da totalidade.
O nível físico pode ser colocado num ponto de stress. O corpo é exigido nos muitos kilômetros percorridos a cada jornada diária que pode variar de 10 á 50 km.
Os passos dão o grounding necessário, a respiração se torna mais presente. O peso da mochila, nos peregrinos modernos funciona como mais um reforço no processo de consciência corporal. E através da percepção do limite do físico, os outros níveis são invocados.
Então uma viagem em busca do SI MESMO, no sentido mais amplo do termo, dá-se internamente, enquanto externamente outra viagem através da natureza é empreendida.
Acontece uma saída da rotina onde ficam para trás: casa, família, amigos, trabalho (referências do ego) para inserir-se numa nova realidade onde muita coisa difere: clima, arquitetura, língua, dinheiro e forma de utilizá-lo, cultura, etc.
O primeiro obstáculo a ser superado é o abandono dos antigos valores, ou da forma habitual de ser no mundo. Há um retorno ao simples. Deixa-se de usar veículos, as roupas e objetos de uso pessoal são os estritamente necessários. Não há lugar para o supérfulo, porque tudo é carregado nas costas e assim vai-se redimensionando o que é essencial e o que não o é.
Inicia-se assim também uma mudança no estado emocional seguindo um processo em permanente movimento ascendente. Quais são as emoções, os sentimentos que são importante estarmos trazendo conosco? E quais são aqueles que apenas aumentam a nossa carga, nosso peso?
Para esses existem um ritual num determinado ponto do caminho. Não por acaso um dos pontos mais altos do caminho. A 1.500 m de altitude depois de uma longa subida e após a cidade de Rabanal Del Camino. Este ritual muito antigo, consiste em lançar uma pedra ao grande monte de pedras que circunda uma haste de madeira coroada por uma pequena cruz de ferro. Esta pedra que pode ser trazida de casa ou pega em algum ponto da caminhada representa os dramas pessoais que necessitam ser transmutados.
Para isso a partir de Rabanal é importante pegá-la em suas mãos, apalpá-la, manuseá-la, acariciá-la, e de vez em quando falar com sua pedra.
Em Foncebadón a cidade abandonada, deixe que lhe toque a alma as casas em ruínas, o tempo que converte em esterco e estábulo as construções, as fontes sem água, e se dê conta da impermanência da matéria. E toda a sombra de sua personalidade, da humanidade e do mundo se vai personificado em sua pedra. Conte suas dores à pedra... e no contato de suas mãos não é mais só pedra, ela se enche de significado e se converte em símbolo. Símbolo do desapego, da busca humilde do ser pelo SER. Ser um com Deus. Nessa intenção se aproxime da cruz, feche os olhos, beije-a e lance-a com força ao monte, pensando em todos os sofrimentos dos homens, todas as “noites escuras” que foram vividas e nesse monte despejadas. Cada pedra simboliza uma vida colocado aos pés de uma energia maior, a proteção divina. Nesse momento ore, visualize sua dor sumindo junto com as dores do mundo inteiro que a cruz representa.
A natureza do Caminho é complexa e profunda, pode ser pressentida, mas não completamente esclarecida e compreendida. Algo de numinoso se processa nessa experiência. Não é por acaso que muitos que a realizaram sente-se impelidos a escrever sobre ela no intuito, talvez, de melhor compreendê-la ou de dividí-la com a sua comunidade.
Percorrer o Caminho de Santiago é viver uma experiência de iniciação. O primeiro ato da iniciação é a morte do antigo estado, o nascimento numa nova dimensão. Para isso o ego precisa dar a permissão, se flexibilizar e sair do controle.
O homem então se lança na aventura de buscar sua totalidade, seu self. Passando de um mundo para outro, sofre uma transformação. A transformação corresponde aqui ao processo psíquico de assimilação e integração, isto é, a função transcendente. Ele deixa de ser um homem comum e passa a ser chamado de “peregrino” que enquanto símbolo religioso significa – o homem sobre a terra cumprindo seu tempo de provações (...), o símbolo exprime não apenas o caráter transitório de qualquer situação, mas também o desprendimento interior em relação às fixações do passado e as expectativas em relação ao futuro, e a ligação a fins longínquos (profundos) e de natureza superior (...)
Nota-se ainda em relação ao símbolo do peregrino, as idéias de expiação no sentido de sofrer as conseqüências do caminhar enquanto rito, em busca da purificação do coração como símbolo do centro (self). E para sobreviver a essa sucessão de provas em muitos momentos se faz necessário invocar a força divina. O ego já não tem o controle da situação. Não se sabe quem terá dores e imprevistos pelo caminho. Muitos são os que têm bolhas, tendinites e outros problemas físicos, e nem sempre os mais preparados fisicamente são os que menos sofrem. A consciência se corporifica e cada sintoma pode ser lido como um sinal, um aviso. O caminho não dá o que queremos, mas o que necessitamos.
É caminhando que podemos ampliar nossa capacidade de enxergar o invisível, o sutil. A priori o mundo da psique está projetada no concreto, e a purificação é a retirada da projeção do mundo, quando tomamos consciência de que o que está fora, também está dentro de nós. Somente aí o caminho se torna Caminho, não existe mais dentro e fora enquanto dualidade.
O Caminho do terapeuta da dep á caminho da consciência
Segundo o modelo da Escola Dinâmica Energética do Psiquismo, existe nos seres humanos um substrato profundo onde estão todas as nossas potencialidades que apenas não se manifestam devido a falta de suporte biopsicológico para tal.
Os bloqueios corporais, emocionais e espirituais são impedimentos para que as possibilidades, que estão no substrato profundo possam se revelar em nós. É aí que entra o terapeuta, aquele que cuida, que apóia o cliente na sua jornada. Ajudando-o a encarar e transformar os bloqueios que o distanciam de si mesmo, estimulando sua autenticidade e liberdade, abrindo terreno para que o inconsciente emerja. E assim o desenvolvimento acontece como uma seqüência de transformações, diferenciações e desdobramento hierárquicos das camadas do substrato inconsciente, começando com as mais densas e finalizando com as mais sutis.
A proposta da dinâmica é o desbloqueio do fluxo de energia do sistema nervoso para poder sutilizá-lo e assim poder atualizar níveis mais elevados de vibração, suportando a intensidade da luz
Quando todo o substrato inconsciente tiver emergido, caso isso seja possível, existirá somente CONSCIÊNCIA o que em termo aristotélicos significa “DEUS”.
O que existe é consciência na medida em que a CONSCIÊNCIA É, todo o manifesto seja físico ou não físico é CONSCIÊNCIA INDIVIDUALIZADA e é assim que nos expressamos na nossa existência, como um inconsciente que vem à tona, tornando manifesto aquilo que era latente.
Ao nos assumirmos como núcleos individualizados de consciência, assumimos o compromisso com o nosso SER de realizá-lo, de manifestá-lo como CONSCIÊNCIA, através das experiências que escolhemos na vida. No entanto, como já foi mencionado acima, nosso sistema nervoso não suportaria manifestar a totalidade de nossas possibilidades sem uma base biológica e psicológica apropriada para sustentar o impacto dessas manifestações.
É por isso que o ser humano busca experiências de vida que o possibilitem amadurecer e criar as bases biológicas, psicológicas, e espirituais para poder sustentar as manifestações das qualidades do SER em si mesmo.
Nascemos numa configuração simbiótíca e através da nossa trajetória existencial trilhamos o caminho da individuação e nos encaminhamos para a unidade consciente, do menos diferenciado para o mais diferenciado, e no final chegamos ao UNO. A nossa tarefa enquanto seres é manifestar novas formas cada vez mais desenvolvidas. Conservar a forma seria o mal. Estas transformações acontecem quando os campos mais sutis de energia penetram os campos mais densos do nosso ser, pois, sempre, uma alta freqüência ativa uma densa freqüência provocando mudanças.
O divino está sempre nos empregnando. Desde que possamos ordenar nossas emoções, aquietar nossa mente ordinária e limpar nossos corpos das toxinas. Poderemos então entrar de uma forma mais profunda em contato com a qualidade do Âmago. Pois, antes de mais nada, a principal responsabilidade de um terapeuta é o alinhamento com o seu próprio SELF, o treinamento para estar em contato com o seu canal de silêncio, a partir de onde poderá perceber o outro de um ponto de vista não egóico, não condicionado.
O Caminho de Santiago é um caminho, a formação da DEP também é um caminho.
Existem muitos outros, pois o essencial é o caminho interior que todo terapeuta empreende.
Essa jornada é pessoal e única, mais contém elementos arquetípicos e portanto universais.
A jornada, segundo Joseph Campbell pode ser subdividida em cinco etapas: o início da vida do herói como pessoa comum, o chamado para aventura, o período de disciplina e treinamento, a busca, e a fase final de retorno e contribuição à sociedade. Estas fases correspondem muita bem a transformação de um individuo comum em um terapeuta. Pois sem jornada pessoal não há terapeuta.
Todo terapeuta no sentido mais profundo desta palavra recebe um chamado para essa aventura que é ajudar aquele que o procura a encontrar o caminho que o leva de volta a si mesmo. E como guiar alguém num caminho que você nunca trilhou? Pois sabemos que só podemos dar a nossos clientes aquilo que possuímos.
A DEP, enquanto escola de desenvolvimento, faz este convite para quem escutou o chamado e prepara o terapeuta, sendo um mapa confiável, mostrando os caminhos para se chegar ao centro. Somente um terapeuta que empreende esta jornada em busca de si mesmo, através do compromisso com seu auto-conhecimento, com sua formação, estudo, supervisão, meditação, e prática ética, poderá ser um guia confiável que ensinará a não ter medo do medo e ajudará seu cliente a ir cada vez mais longe na sua evolução.
CONCLUSÃO
O caminho de Santiago e o caminho do terapeuta da DEP,podem ser entendidos como um processo de busca pela transcendência.
A função transcendente é, em essência, um aspecto de auto-regulação da psique que transcende a dualidade e cria uma nova forma que inclui as duas anteriores numa perspectiva mais ampla. É experienciada como uma nova atitude em relação a si mesmo e à vida.
Esta função aparece durante a luta do homem na tentativa de alcançar um estágio ampliado de consciência durante sua evolução. Neste estagio superior acontece uma emergência na consciência dos conteúdos inconsciente da psique.
Desta união é gerada a função transcendente, a qual pode levar o individuo à plena realização das potencialidades do SER.
Bem aventurado é, peregrino, se descobres que o caminho lhe abre os olhos que não se vê.
Bem aventurado é, peregrino, se o que mais lhe preocupa não é chegar, se não chegar com os outros.
Bem aventurado é, peregrino quando contemplas o caminho e se descobre, cheio de nomes e de amanheceres.
Bem aventurado é, peregrino, por que descobriu que o autêntico caminho começa quando se acaba.
Bem aventurado é, peregrino, se sua mochila se vai esvaziando de coisas e seu coração não sabe aonde colocar tantas emoções.
Bem aventurado é, peregrino, se descobres que um passo atrás para ajudar outro, vale mais que seguir adiante sem olhar para seu lado.
Bem aventurado é, peregrino quando lhe faltam palavras para agradecer tudo que o surpreende em cada curva do caminho.
Bem aventurado é, peregrino, se buscas a verdade e fazes de seu caminho uma vida e de sua vida um caminho, em busca de quem é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Bem aventurado é, peregrino, se no caminho se encontra consigo mesmo e se dá um tempo sem pressa para não descuidar de seu coração.
Bem aventurado é, peregrino, se descobres que o caminho tem muito de silêncio e o silêncio de oração e a oração de encontro com o pai que lhe espera
LEGIÃO DE MARIA
Bibliografia
- BASSO, Theda – PUSTILNIK Aidda
• Corporificando a consciência – Ins. Cult. DEP
• O Inconsciente Emergente – Introdução a Dinâmica Energética do Psiquismo – Ins. Cult. DEP
- CAMPBELL, Joseph
• O Poder do Mito
- STRAPASSON, Suzana Lira
• O Caminho como Arquétipo ( artigo)